Crítica | Trilogia de Terror (1975): a união é o problema

Não é engraçado um filme se chamar “trilogia”?

Julie

Acho que é a primeira antologia que vejo que não tem história-macro ou introdução. Tudo segue como um besteirol americano de relacionamento aluno/professor, até que a cena noturna se torna uma cena diurna.

O fato de o protagonista ter ficado do lado de fora da casa e não ter entrado em contato o torna um stalker. Isso e a perspectiva de que ele trata a conquista da professora como um jogo tornam o clima menos bobo, agradável ou amoroso.

Essas dicas do conto tornam crível a atitude de dopar a professora. A escalada do suspense é boa e conseguiu me cativar, até a reviravolta. Eu teria achado ruim a falta de explicação para o processo hipnótico, mas acabei gostando por associar ao Kotoamatsu Kami, uma técnica hipnótica de Naruto.

O conto é interessante. Por si só não tornaria uma antologia boa, mas a impediria de ser um fracasso.

Millicent e Therese

O início do conto com a narração me desperta a sensação incômoda de não ser algo adequado para um filme. Esse uso da narração combina mais com livros ou cenas em que os personagens estão fazendo algo diferente, não escrevendo. Não é ruim, apenas desgosto.

Quanto mais a protagonista fala sobre a irmã sem que ela apareça, mais eu me desinteresso pelo conto, pois, desde o flashback, eu já imaginava que haveria uma reviravolta de dupla personalidade. Os exageros na descrição das personagens tornaram o plot twist menos surpreendente.

Se fosse um livro, o fato de ambas nunca estarem no mesmo lugar ao mesmo tempo passaria bem mais despercebido. A ideia do conto talvez não fosse ser surpreendente, mas o desfecho não carrega elementos interessantes o suficiente para que o todo seja válido.

No mais, é um segmento abaixo do que poderia ser.

Amelia

Uma parte do conto é composta por duas ligações telefônicas irrelevantes e tediosas, ressaltadas pelo único humano visto em ação na trama. Esse pedaço já seria o suficiente para considerar o segmento final chato.

Eu esperava o óbvio: o boneco vira um monstro e persegue a mulher. A segunda parte da história trazer um monstro do tamanho do boneco cria um ambiente ridículo de paródia e alguns trechos de humor eficiente.

Eu posso considerar que as burrices da protagonista são piadas, mas isso não ajuda o balanço final do conto. Não faz sentido ter duas histórias sérias e a terceira ser uma piada desse naipe. Certamente eu gostaria muito mais se o resto de Trilogia de Terror fosse uma comédia parodiesca.

Conjunto da obra

Julie é regular, Millicent e Therese é regular e Amelia é regular. Neste caso, o todo não é igual à soma das partes. O segundo conto sabota a experiência telegrafando o plot twist e o conto final contém uma falta de seriedade incompatível com o restante da obra.

No fim, esse frankentein chamado de Trilogia de Terror entrega uma experiência antológica irregular e insatisfatória, beirando a sonolência. O que ele tem de mais marcante é a sequência do boneco, mas não é uma lembrança positiva (considerando o que ele significa diante do todo, não individualmente).

Se cada conto fosse visto em antologias apropriadas, eu destacaria a ideia interessante do primeiro, o tipo de plot twist do segundo (que gosto muito), algumas piadas e o final do terceiro. Juntá-los reduz os acertos e ressalta os erros.

É importante mencionar isso porque nenhum dos contos é inaproveitável, como o segmento da seita no V/H/S 2 ou o do fantasma serial killer no V/H/S. Mesmo sendo uma experiência insatisfatória, Trilogia de Terror (1975) ainda mostra como o terror setentista conseguia ser melhor que o terror do século XXI.

Antologias setentistas analisadas no Blog do Kira:

A Casa que Pingava Sangue (1971)

Contos do Além (1972)

A Cripta dos Sonhos (1973)

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