Filmes contemporâneos: como são feitos?

Entre a ideia e a telinha

Cinéfilo ou não, todo mundo gosta de filmes. Uns gostam mais dos streamings, outros preferem cinema. Graças aos recordes de bilheteria batidos pelo Vingadores: Ultimato (2019), muita gente conheceu o funcionamento da arrecadação desse tipo de filme, mas muitos desconhecem as engrenagens que precisam funcionar para que um longa-metragem chegue às telonas. A fã de cinema Noemi Melo admite que, apesar de gostar de Vingadores, nunca se interessou por ver mais do que vídeos de bastidores das gravações. Se, assim como ela, você não sabe como uma produção cinematográfica é feita, continue aqui e descubra.

Pré-produção

A ideia

Todo filme começa pelo argumento, que é um resumo, uma síntese da proposta da história. É como um protótipo que se tornará roteiro após a ampliação de seus conceitos e a adequação às possíveis exigências para que aquele rascunho se torne um filme.

A construção de roteiro tem como um de seus pilares a estrutura de três atos. Ela divide o filme em três partes: (1) a introdução aos personagens e ao mundo, (2) o desenvolvimento de seus conflitos e (3) o conflito máximo, que é a finalização da trama e, em alguns casos, o gancho para a sequência.

Caso o autor do argumento não seja o responsável pelo roteiro, este é contratado pelo produtor-executivo, após a aprovação do argumento em alguma forma de financiamento.

Quem financia

Os sucessos de bilheteria costumam ser bancados por grandes estúdios de cinema. Nestes casos, o autor do argumento o envia a um produtor do estúdio. A partir daí, se aprovado, começa a fase de organizar, contatar e orçar.

Se o filme for bancado por leis de incentivo (como a Lei do Audiovisual, no Brasil), existem as formas de incentivo direto e indireto. O direto é o dinheiro entregue na mão, enquanto o indireto dá permissão para que o requerente encontre empresas dispostas a participar do programa de incentivo, que converte seu pagamento de impostos em fundos para a produção do filme.

Com a conta bancária cheia, o primeiro a ser escalado é o diretor.

O papel do diretor

Em cinema, o diretor é o poderoso chefão, aquele que manda na parte criativa. É prerrogativa do diretor desenvolver e cobrar diretrizes para o transcorrer de todas as tarefas necessárias. E são várias tarefas necessárias. Para o cumprimento de algumas delas, existem profissionais específicos.

Produtor-executivo: o homem com a caneta. É quem administra os recursos disponíveis para a produção do filme.

Diretor de produção: responsável por todas as necessidades práticas da produção, como equipamentos, locações, alimentação e por aí vai.

Diretor de fotografia: define os tipos de câmeras a serem utilizadas, bem como os equipamentos necessários para a iluminação do set. A fotografia tem que casar com o roteiro, e, para isso, são usados desenhos de cada plano a ser filmado.

Diretor de arte: cria o conceito que define a aparência do filme, os elementos do cenário, as cores, figurinos, etc.

Diretor de som: planeja toda a captação de som das cenas, adequando equipamentos às locações.

Editor: é o profissional que monta o filme, “colando” os planos e imprimindo ritmo. Sua atividade é intimamente ligada ao diretor de fotografia e ao roteirista.

O diretor geral do filme é como o regente de uma orquestra. Com um conhecimento ao menos mínimo acerca de cada área, ele fornece subsídio para que cada diretor torne real aquilo que o diretor geral e o roteirista imaginaram. O dir. de arte conta a história com o visual, o dir. de fotografia conta a história com os enquadramentos de câmera e o dir. de som conta a história com os efeitos sonoros. Cada qual com a sua própria equipe.

Até a criatividade exagerada pode ser prejudicial. Se um subdiretor se empolga em sua visão, pode acabar desviando o foco do filme. “O roteiro tem que saber o que tem função dramática, seja objeto ou a cor preponderante da imagem, e os outros setores têm que seguir. Às vezes, o diretor de arte cria uma coisa bonita que atrapalha a dramaturgia”, explica Newton Cannito (Magal e os Formigas, 2016), cineasta e doutor em Cinema e TV pela USP.

Os atores

Nas grandes produções, os atores que interpretarão os personagens principais são escolhidos a dedo, considerando o interesse deles pelo projeto e a disponibilidade de agenda. Os outros podem ser contratados por meio de peneiras de agências. O teste geralmente consiste em o candidato interpretar um roteiro, do filme a ser produzido ou não, diante de um avaliador. Daí em diante, mais testes são feitos até que se chegue ao melhor.

Foto por Alexander Acker em flickr.com/photos/smartalexacker/6652333171

Produção

Montando o set

Um trabalho crucial e visível da equipe de produção é a construção dos cenários e a busca por objetos de cena. Além do que se vê no filme, há uma série de elementos que precisam ser organizados para que tudo flua. Entre eles está uma rede elétrica para alimentar todos os equipamentos, várias peças de figurino para evitar que alguma se degrade, material de escritório e até os lanches. Como a iluminação é essencial, adaptações podem ser necessárias e há ocasiões em que se simula a noite durante o dia e vice-versa.

O roteiro e ajustes

Cada diretor tem um modo de agir, o que faz com que algumas produções permitam mais ou menos alterações de roteiro por parte dos atores. Os ajustes dependem também do envolvimento de cada um com o personagem. Em geral, eles consistem em mudanças de frases ou palavras, não de uma cena inteira. “Eu acho que os melhores trabalhos são os que têm uma troca com o diretor e o roteirista, onde todo mundo cria junto, sem alterar a história, mas trazendo a sua visão da personagem”, afirma o ator Antonio Saboia (Bacurau, 2019).

Ação!

Foto por ChrismetcalfTV em flickr.com/photos/laffy4k/9484362/

É depois que o diretor pede silêncio no set que a mágica acontece. A claquete sinaliza em áudio e vídeo o início da tomada e o filme começa a ser gravado. Enquanto os atores interpretam, o operador do boom precisa se mover para acompanhá-los, sem que ele ou seu equipamento entrem em quadro. Quando o trabalho envolve outros maquinários, o cuidado para não aparecer é redobrado.

Existem diretores que ensaiam mais e outros que partem logo para a gravação valendo, para não perder nenhum take relevante. Independente do método, problemas sempre surgem. Pode ser uma câmera quebrada ou uma chuva que não estava nos planos e o resultado é o adiamento da filmagem das cenas para outro dia.

A maioria dos sons são gravados depois, para terem a qualidade ideal. Existe um profissional específico que é responsável pela “confecção” de efeitos sonoros que vão desde o roçar do tecido da roupa de um personagem até o barulho da chuva. E assim pisadas em sacos de areia se tornam fidedignos passos na neve.

Imprevistos pessoais

Uma das coisas que prejudica o cronograma de um filme é o atrito entre os atores. O clima ruim gerado por uma briga pode dificultar a filmagem e até causar o afastamento de algum deles, o que provoca alterações no roteiro, refilmagens e queda no lucro do projeto.

A necessidade de refilmar várias vezes acaba gerando os erros de continuidade, que são detalhes que mudam por acidente. Isso acontece principalmente com os cabelos dos atores, que podem ser vistos penteados para lados diferentes. Um quadro que muda de posição e um vidro quebrado que muda de forma são outros dos erros que o continuísta deve evitar.

Pós-produção

Edição

O processo de montagem é, talvez, a parte mais importante de fazer um filme, pois consiste na união de tudo o que foi produzido, todos os olhares, de modo que seja compreendido pelo público da forma correta. Cortar antes ou depois de um leve sorriso de um personagem pode alterar totalmente o sentido de uma cena e até do filme inteiro, mas o trabalho do editor não é só mecânico.

O editor cuida da transição entre as cenas, podendo criar rimas visuais. Nestes casos, o editor torna o filme suave e permite que o espectador “deslize” entre os takes. Em outros casos, a intenção do filme pode ser causar impacto, e aí um corte brusco torna alguma cena mais apreensiva.

Nessa fase, a computação gráfica, imagens construídas por computador, pode se mesclar aos cenários e criar a percepção de que o ambiente é muito maior do que o lugar em que foi filmado. Assim se criam paisagens, adereços e até personagens, como no caso do Hulk.

Dublagem

Quando um filme vem ao Brasil, um estúdio de dublagem é contratado pela empresa que faz a distribuição. Aí entram os atores especialistas em imprimir emoção na voz. Como o filme não pode vazar, o trabalho de dublagem é sigiloso, inclusive com o dublador recebendo o texto apenas no dia de gravar.

A tradução para a dublagem e a tradução para a legenda são artes distintas. Quem legenda precisa adequar o texto ao espaço da tela e ao tempo que o espectador terá para ler, o que pode obrigar certas palavras a serem trocadas por sinônimos menores ou até mesmo retiradas. O texto da dublagem precisa se preocupar com a oralidade dos brasileiros, com o encaixe no movimento da boca do ator do filme e a emoção.

Chegando a você

Os cinemas

E como o filme chega de fato ao cinema para ser exibido? A produtora acorda com uma empresa de distribuição e lhe repassa a mídia do filme finalizado. Cabe à distribuidora cuidar do marketing e conduzir toda a logística do envio aos cinemas, o que inclui transporte físico e um intenso trabalho de vigilância para impedir que alguma cópia seja vazada, como ocorreu com Tropa de Elite (2007), o filme que esteve nos camelôs antes de estrear.

Na tela da TV

Para que o filme seja exibido por canais de TV, acordos de licenciamento são feitos entre as emissoras, as distribuidoras e as produtoras. Nessas negociações, entram em jogo as cláusulas de exclusividade. No caso da TV fechada, existem canais próprios dos estúdios, como a Warner, além dos fechados premium HBO e Telecine, que exibem os últimos lançamentos anos antes dos canais abertos.

E é isso o que acontece antes da família se juntar para ver o filme na Temperatura Máxima.

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