Crítica | É Um Desastre (2012): o final é um desastre

Quatro casais se encontram para o almoço de domingo e descobrem que estão presos em casa, pois o mundo pode estar prestes a acabar.

É Um Desastre é vendido como um filme de comédia. A intenção dele é fazer graça com a reação que as pessoas têm diante de um evento apocalíptico. Com um objetivo desses, é difícil fazer um filme ruim.

O maior ponto positivo do filme é ser leve. Ele trata de alguns assuntos pesados, mas é recheado de momentos bem-humorados. Não são piadas explícitas, mas situações levemente engraçadas que fazem sentido dentro daquele contexto.

Com isso, É Um Desastre não é muito engraçado, mas é quase inteiramente engraçadinho. Isso torna a experiência de assisti-lo agradável. É um bom passatempo especialmente para quem gosta de filmes com uma pegada de mistério, como eu gosto.

A parte do mistério também é boa. O roteiro é muito hábil em mostrar elementos e conectá-los, compondo assim o ambiente apocalíptico da trama. Tem o sinal de celular, o telefone, as sirenes e os helicópteros. Tudo reforçando uma ambientação de alta qualidade.

Há pouco avanço concreto no mistério. A ligação das Filipinas e o rádio adicionam pouco. O mais relevante — e interessante — é a descoberta de que não se trata de um ataque radioativo, mas sim um ataque biológico, muito mais letal.

O filme trabalha bem o desespero e as medidas tomadas para lidar com o problema. O traje especial do vizinho maltratado, a vedação das janelas e portas, a fuga de carro e a desistência da preocupação.

Todos esses passos são consistentes e válidos, com exceção da fuga de carro. Por mais que faça sentido a bateria ter acabado, o momento da decisão é tão bom que merecia ser levado a sério, mesmo em um filme de comédia.

Uma característica que define bem É Um Desastre é “redondo”. Ele não é exageradamente intrincado, mas constrói ligações relevantes entre fatos relevantes. Isso melhora a fluidez drasticamente e torna o roteiro mais robusto. É perceptível que ele foi escrito com cuidado, como verão a seguir (são muitos personagens e não guardei o nome deles).

Exemplo 1: o estranho reclama que a internet não está funcionando, o dono da casa vê sumir o sinal da TV e se ira, achando que a esposa deixou de pagar propositalmente, pois estão em processo de divórcio. Por ser um almoço de casais, o momento é muito importante para os personagens e para o andar do filme.

Exemplo 2: o grupo procura um rádio para saber o que está acontecendo, a doida encontra um rádio no chuveiro, menciona ter tomado banho lá e a dona da casa descobre que o marido a traía com a doida.

São ações coerentes e embasadas resultando em reações úteis para o desenrolar da trama. Não é algo de outro mundo, mas faz com que grande parte do filme tenha acontecimentos relevantes, seja para o todo, seja para algum personagem específico.

A situação extrema faz alguns personagens evoluírem e reavaliarem suas vidas. Tem o arco da traição e reconciliação, o arco da separação e o arco do casal que se dá bem, mas este último culmina em uma reviravolta muito surpreendente.

Eu esperava pela revelação do segredo que o dono da casa deu a entender que havia entre o Glen e a loira, mas a descoberta não se baseou nisso. Ver o Glen envenenando o vinho foi chocante e levou a um momento muito bom.

É como a sequência final de O Nevoeiro: os sobreviventes discutem sobre um suicídio coletivo ser melhor do que sucumbir ao evento catastrófico. Estava tudo indo bem e o meu respeito pelo roteiro estava lá no alto, mas as burrices vieram.

Os donos da casa haviam decidido não tomar o vinho e mudam de ideia depois que a loira diz que só irá tomar se todos tomarem. Se era para ser uma piada, não teve a mínima graça. É a única atitude grosseiramente sem sentido tomada por algum personagem (embora eu questione a aderência do nerd ao brinde).

Aí todo mundo encosta a taça na boca e não bebe, algo ligeiramente engraçado, mas que joga contra o clima tenso criado pelo final. Para o meu total espanto, É Um Desastre acaba com os personagens novamente encostando a taça sem tomar.

Depois de tantos bons diálogos, piadinhas eficientes, mistério bacana e ângulos de câmera variados e agradáveis, É Um Desastre estragou tudo com esse final desastroso.

Não houve uma reviravolta sensacional como em O Nevoeiro, não foi engraçado e não concluiu a trama do filme. É um final horrível feito de qualquer jeito.

É péssimo ter um não-desfecho arrasador como esse depois de tantos méritos do roteiro. O roteiro que fez o dono da casa conversar com o Glen sobre como dar más notícias, um foreshadowing para a revelação do divórcio do casal.

Francamente, eu nem imagino o que motivou o diretor do filme a finalizá-lo assim. O final O Nevoeiro até poderia ser usado como piada absurda, além de concluir o enredo.

Sobre o humor, o Glen chegando e perguntando se perdeu alguma coisa logo após a explicação catastrófica da química é uma ótima piada. É canastrona, mas faz sentido no contexto de pegar uma conversa no meio, além de combinar com a linha geral das ações do personagem no filme: vergonha-alheia.

Eu lamento ter de dizer isso após a cena ótima do pessoal cantando e dançando para aproveitar seus últimos momentos, mas É Um Desastre é o tipo de filme que mais detesto: aquele que escolhe não ser bom.

Antes dos cinco minutos finais, É Um Desastre passava bem longe de ser um desastre. Se fosse concluído como O Nevoeiro ou mesmo uma resolução simples de “todos viveram felizes para sempre”, eu o avaliaria como quase ótimo.

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